segunda-feira, 22 de abril de 2013

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sexta-feira, 18 de março de 2011

Modernidade: o domínio dos seres autômatos

Quando falamos da modernidade temos em vista um conjunto enorme de transformações ocorridas nas dimensões econômicas, sociais e políticas. Esse cenário determinou a maneira de homem pensar a si mesmo e a sua organização social. O homem rompe com o medieval, com as estruturas feudais. Além disso, é importante ressaltar que, no interior dessas mudanças, encontramos uma transformação profunda na perspectiva sobre a realidade. Tal mudança é decorrente das transformações e descobertas tecnológicas.

Nesse cenário observamos a comparação do homem e da sociedade com a máquina. Aliás, tal fenômeno é muito perceptível na visão de ciência da época, na discussão sobre a legitimidade política, na organização social. Um exemplo disso encontramos em intelectuais como Descartes e Hobbes. Tais pensadores fazem uso da metáfora da máquina para explicar o universo. Aliás, a concepção de um Deus teísta substituída por uma visão deísta ocorre frente à visão de um ente divino percebido como um artífice, que ao construir a sua obra não mais intervém. Isso pode sugerir um entusiasmo quanto às transformações tecnológicas que poderiam ganhar tamanha autonomia, realizar feitos que homem ainda nem pudesse sonhar em realizar, ou seja, a máquina substituindo o homem sem nenhuma necessidade de intervenção, um sonho e uma realidade a ser buscada.

Desse modo, por meio da máquina o homem se aproxima ao divino medieval. Na metáfora do mecanismo, Deus, por ser perfeito, realiza uma obra, a qual não pode realizar nenhuma intervenção. Uma intervenção divina significaria a aceitação de sua imperfeição. Logo, a natureza, percebida como uma criação divina, passa ser considerada como mecanismo auto-regulador, capaz de corrigir seus eventuais problemas. Ela passa ser dada como uma grande máquina, perfeita e autônoma. Quanto ao homem, na condição de simples mortal, cabe buscar as regras desse mecanismo para, então, dominar a natureza e chegar ao mais próximo da condição da divindade, ou seja, tornando-se um criador, promovendo o fenômeno fantástico da criação e da descoberta.

Diante desse universo, a máquina passa a ser cada vez mais um objeto de admiração que aos poucos irá tomar um lugar definitivo nas modernas sociedades; com a sua utilização desenvolvemos novas formas de organização, de concepção de trabalho, de organização social. Aliás, os modernos fazem uma comparação da máquina com o homem. Como diz Hobbes: “não poderíamos dizer que todos os autômatos (máquinas que se movem a si mesmas por meios de molas, tal como um relógio) possuem uma vida artificial. Pois o que é o coração, senão uma mola: e os nervos, senão outras tantas cordas” [i]. Assim, a vida é comparada com o movimento mecânico. Essa visão favorece o cenário propício para o domínio do homem moderno sobre a natureza, pois, com a análise, ele poderia entender as engrenagens e com a síntese compreender todo mecanismo natural e, assim, desvelaria para si mesmo o fenômeno da vida.

A partir de então, o homem vê na máquina a sua maior inspiração e realização. Entusiasmo este que leva a pensar a si mesmo como uma máquina. Nessa perspectiva, o homem dotado de um mecanismo natural é visto como um ser capaz de construir um mecanismo artificial para sua comodidade e domínio. Todavia, na guerra entre conceitos resta saber onde encontrar o homem. Pois, está perdido no universo das engrenagens, que a modernidade vislumbrou com tanto entusiasmo. Talvez, o mecanismo possa dar lugar ao humano. Talvez esse seja um sonho contemporâneo!



[i] Leviatã, p. 05.


sábado, 12 de março de 2011

O suplício da Coruja

O ser humano acorda na modernidade do chamado pesadelo medieval, ou período que muitos chamaram de idade das trevas, que por sinal aprendemos com os historiadores a questionar essa determinação. A personagem da nossa história é a Coruja da Deusa Minerva que inspira o renascimento de um novo homem capaz de vislumbrar a sua capacidade de conhecer.
A coruja de Minerva passa convidar a humanidade a despertar da verdade absoluta religiosa. Mas, o convite é entendido pela metade, pois o sonho de Minerva era impulsionar a interação entre o conhecimento humano, a sociedade e a natureza. A pobre Deusa e sua Coruja são induzidas, devido ao convite, a um pesadelo, pois a humanidade substitui a verdade Medieval religiosa pela sonhos dogmáticos na personificação do eu, da subjetividade. Por esse motivo, a coruja, nossa personagem, vai embora para a morada dos deuses.
O homem moderno voltasse para a sua própria morada, ou seja, o indivíduo, que sonha emancipar a si mesmo, não pensa mais na sua condição social e de ser integrante da natureza. O pesadelo de Minerva é intensificado quando o conceito de razão, que a ela dizia respeito, passa ser apresentando como razão de ser da consciência individual e, ao mesmo tempo, o homem acomodasse em uma razão calculista, que associa meios e fins.
No entanto, abandonado pela coruja de Minerva ou da Sabedoria, o ser humano esquece de colocar a si mesmo como finalidade indispensável. O conhecimento passa ser uma forma de dominar a natureza, criar riquezas. Para piorar a situação, a deusa e a coruja enfrentam a amargura de não servirem de orientação para a conduta humana e ironicamente o homem produz o conhecimento suficiente para o seu esquecimento.
A coruja de Minerva heroicamente tem esperança. Entretanto, seu intento cai por terra, o homem é mais sonhador e coloca na finalidade da existência a produção técnica, pois o conhecimento considerado importante é aquele que é capaz de produzir riquezas, de dominar a natureza e a si mesmo. Por isso, Minerva reclama pelo fato do conhecimento humano não criar e recriar o homem na sua totalidade. Por esse motivo, a técnica, sem orientação por fim autêntico da existência, apenas movimenta a engrenagem que passa sobre o homem como um rolo compressor, que aos poucos vai matando a consciência do existir e do motivo de existir. Isso não é mais importante. A grande importância está em equacionar a produção, de visualizar a utilidade. Desse modo, racionalizar significa somar, dividir, estabelecer objetivos para fazer as corporações crescerem.
Em um lamento agonizante, a coruja suplica para o pensar da existência, sobre que espécie de racionalidade tornou-se o valor absoluto e inquestionável, quais os motivos de derrubar a verdade e o dogma do Deus medieval se homem não é capaz de viver sem verdades absolutas, pois a coruja de minerva percebe, por meios de suas habilidades, que a humanidade apenas trocou uma verdade por outra e a soberania do indivíduo não é a soberania da autentica dignidade humana. A ciência não produz nada importante se olhar do homem não for para sua condição. A coruja de Minerva suplica e questiona quem é você humano, cuja consciência está reduzida a equação do mercado. O suplicio é assustador, pois a deusa minerva perdeu seus poderes para Hades. Em contrapartida, no mundo da utilidade e "real", o homem é medido pelo valor do mercado, pela utilidade que representa. Nessa equação, o humano passa  não ter mais importância. A coruja afastasse para templo dos deuses carregando o lamento da humanidade que perdeu-se a si  mesma.